segunda-feira, novembro 05, 2012

Levizices

Ele começou durante o fim de uma refeição:

- Mamãe, quando eu crescer e for bem grande, quero ter um bebê na minha barriga.
- Filho, meninos e homens não carregam bebês na barriga. Seu pai não tem nenhum bebê na barriga dele.
- Só as mamães?
- Só as mamães, só as mulheres.

Depois de alguns minutos falando sobre outra coisa, entra o pai e se senta.

- Mãe, o papai tem um adulto na barriga dele. Posso ter um adulto na minha barriga?

***

Toda vez que a gente explica uma coisa para o Levi, ele classifica por grupos. Explico.
Ontem à noite, depois do culto, estávamos todos tomando um cafezinho com biscoito e ele veio correndo, todo sorridente, pegou meu braço e mordiscou, ao que repreendi imediatamente explicando que ele não deve morder:

- Só os leões?
- Ai, Levi, só os leões.
- E os tigres também, mamãe.

E ele faz isso com tudo.

- Posso usar essa faca grandona, mãe?
- Não, é muito perigosa.
- Só as mamães? E os papais?
- É. Os adultos.
- As Claras e os Levis não?
- ...

Uma senhora, que estava ao nosso lado, ouviu a conversa dos leões e tigres. Perguntou se ele gostava do Chaves. Mas ele nem assiste tv. E ela me lembrou de que o Kiko faz exatamente isso.

Sabia que já tinha visto esse filme em algum lugar...


sexta-feira, novembro 02, 2012

Pontos de vista

O dia começou ruinzinho hoje. Ruinzinho é modo delicado de dizer péssimo. Temos um RYH (restoring your heart group) na igreja e ele trouxe à tona coisas difíceis de enfrentar. Não quero falar sobre isso, talvez noutra ocasião. Ou nunca.

Por causa disso passei muito tempo lerdando no quarto, pensando e pensando enquanto as crianças corriam sem lenço e sem documento no quintal da igreja e meu marido tentava entender onde raios eu estava com a cabeça.

Durante esse tempo pensante lembrei-me de muitas coisas tristes, mas fui interrompida em minha escada rumo ao porão quando uma memória veio à tona. Sobre ela discorro.

Meus filhos tem direito a serem cidadãos europeus. Com o Levi resolvemos tudo presencialmente, no consulado do Rio de Janeiro. Com a Clara, já por nos conhecerem no consulado, disseram que se o pai fosse ao rio munido de toda documentação, aceitariam. Porém, somados aos documentos básicos, precisaríamos de uma declaração minha, feita em cartório, ao que disseram ser "declaração pública". Não havia modelo pré-estabelecido. Porém a dna Fulana do consulado disse todos os ítens que deveriam constar. Ela foi enfática dizendo que eu não poderia fazer a declaração em casa e registrar em cartório. Deveria ditar na presença de um escrivão. Por que? Porque isso é uma segurança a mais, uma prova de que não fui coagida. Na Romênia eles não aceitam registrar declarações feitas em casa, logo, o consulado deles também não.

Tá difícil de entender isso? Obrigada.
 

***

Quando registramos o Levi no consulado, presencialmente, tivemos um imprevisto que nos ocupou muito tempo e poderia ter atrapalhado o processo. O cartório em que ele fora registrado não possuía sinal público (é como um reconhecimento de firma de cartório) em nenhum cartório do RJ e esses documentos não podem ser enviados por fax ou e-mail e não tínhamos tempo hábil para esperar ua correspondência. Depois de conversar muito, um cartório entendeu a situação e recebeu o sinal por fax.

Sabendo disso, ligamos para muitos cartórios em JP a fim de descobrir qual possuía sinal público no RJ para nos poupar o trabalho todo. Em  nossa cidade eles disseram que mandariam o sinal púlico em mãos com meu marido, mas eles não tem papel timbrado... que consulado aceitaria isso? Gato escaldado tem medo de água fria. Depois de muito procurar, liguei para um e a atendente me disse que eles possuiam o sinal em TODOS os cartórios do RJ. "Todos??" "Sim, dna. Temos muitos anos de experiência".

Uau! Problema resolvido. Como eu estava com o ombro doendo muito e precisava ir ao pronto-socorro, no dia seguinte decidimos resolver tudo de uma vez na capital.

***

Saímos de casa cedo, correndo como sempre, mala das crianças arrumada, todo mundo lindo e perfumado, garrafinhas de água abastecidas, sling, pasta com documentos, lanchinho, brinquedos. Filhos devidamente amarrados em suas cadeiras respectivas, partimos.

Fomos direto para a clínica ortopédica, mas a atendente disse que seria melhor eu voltar à tarde, quando teria menos gente. Ok. Bora pro cartório.

Chegamos no cartório, tudo organizado, recepcionista sorridente. Explicamos que havíamos telefonado e ela pediu para subirmos. O fulano indiacado nos atendeu com cara meio estranha. Não gostei. Descemos, conforme orientação dele, para conversarmos e fazermos a cópia dos docs. Daqui para frente foi um tormento.

- Por que vcs não trouxeram essa documentação pronta, só para registrar?
- Na cidade de vcs não tem cartório? Para que gastar dinheiro vindo a JP para uma declaração? Poderiam resolver mais facilmente lá. Olha, vcs precisam me explicar de novo, eu não entendi como a declaração deve ser feita.

Você leu até aqui e sabe quais são as respostas. Tudo isso durou quase 40 minutos. O Levi estava inquieto, subindo e descendo as escadas. A Clara, antes no sling, estava no chão engatinhando livre para relaxar. Eu estava querendo torcer o pescoço do Sr. Fulano, mas respondia polidamene às perguntas de uma moça em atendimento e da recepcionista.

- Ai, moça. Sua filha vai cair daí desse negócio. Melhor vc tirar, né? - dizia uma.
- Geeente!! Que perigoso! Com certeza ela deve estar desconfortável (enquanto a Clara COCHILAVA), isso é muito estranho - interceptava a outra.
- Moça, sua filha está descalça, o sapatinho dela deve ter caído.
- Ela não usa sapatinho, nem chinelo, nem nada. Só calço meus filhos depois que aprendem a andar com firmeza - respondi.
- Tadinhos, com o pé nessa sujeira. Tadinha, como ela vai firmar o pé? Vai demorar a andar, né? O outro demorou?
- Sim, demorou 8 meses para ele andar com firmeza. Ela tem 7 e até os 9 deve concluir o processo e precisar do primeiro chinelinho - disse eu, com um sorriso simpático.
- Ai, moça, credo!! Ele andou com 8 meses?? Não é normal. A gente logo vê que ele tem muita energia. Deve dar muito trabalho.
- É... talvez dê trabalho. Você já teve um bonzai? - perguntei.
- Hã?
- Bonzai, aquela plantinha japonesa, aquela mini árvore.
- Ah! Acho lindo!! Não tive, não. Dizem que dá muito trabalho. O que tem isso?
- Nada. Ganhei um bonzai. Morreu logo, eu não sei cuidar, ele dá muito trabalho, não durou 3 meses. Planta dá trabalho. Criança... num sei não. As minhas tão durando mais que o bonzai.

Silêncio das duas. Ouvi o Sr. Fulano falando:

- Ok, sr. Fernando. Os documentos estão aqui comigo, vou preparar a documentação e em alguns dias ligo para vcs.
- Oi?? - interrompi - Alguns dias? Hoje, meu querido. Agora mesmo. Meu marido vai viajar semana que vem.
- Ah... até semana que vem ele estará com a declaração em mãos.
- Não. Hoje vamos sair com a declaração. Por que não hoje?
- A senhora não entende. Eu preciso criar o modelo do documento.
- Não, você precisa digitar o que eu disser, como a Dna do consulado pediu.

Fernando me olhando com cara de espanto, não tinha sacado que o fulano estava desconfiado de nossa integridade. Grudou em mim e pediu para irmos, porque estava na hora da minha consulta. Cedi, porque tinha muita dor no ombro, não queria perder o médico, as crianças estavam cansadas e eu precisava explicar ao meu marido o que estava acontecendo ali.

Fomos para o carro, falei para o Fer que o cara estava desconfiado, que provavelmente procuraria informações a nosso respeito antes de fazer a declaração e que ele não tinah esse direito.

Ele achou que eu deveria voltar ao cartório. Larguei a turma no carro e fui correndo (duas ruas), cheguei esbaforida com a corrida, avisei a recepcionista que precisava falar com o Sr. Fulano e subi os dois lances de escada. Ele ficou bege e trêmulo, mas manteve a pose.

- Pois não, dna Carolina, esqueecu alguma coisa?
- Na verdade não - ofegante - voltei para esclarecer umas dúvidas.
- Quer água?
- Não estou com sede, estou esbaforida. Obrigada. Quero saber por que cargas d'água você não pode fazer a declaração agora.
- Já expliquei, preciso criar um modelo de documento e...
- E nada. - educada, porém resoluta - E a Dna Cônsul quer que eu dite e você escreva.
- Mas ela pode não receber se não estiver nos moldes corretos.
- Molde correto é como ela quer. Ela quer com esses dados e pronto. Vamos fazer.
- Não posso.
- Por que?
- Estou ocupado.
- Você esteve ocupado conosco, enrolando por quase uma hora. Parece desconfiança.
-...
- Ok. Vou sair daqui, porque meus filhos estão cansados e tenho consulta. Quero que você saiba que eu sei que está desconfiado. Você não tem esse direito. Não pode negar um serviço. Meu marido é estrangeiro, não entendeu, mas eu não. Sou brasileira, paulistana, conheço meus direitos. Isso é preconceito, se não for xenofobia. Mas eu preciso do documento de vcs, por causa do sinal público.
- Não temos sinal público em todos os cartórios do RJ.
- Como assim? Vim para este estabelecimento por causa disso.
- Podemos enviar, temos em alguns.
- Ok, preciso saber em qual.
- Quer que eu diga assim, de cabeça? Não tenho como lembrar.
- Não, eis que converso com um ser humano, não com um pc. Você pode se informar, não?
- A senhora pode descer e perguntar ao fulano.
- Não, eu não posso. Não trabalho no cartório, você trabalha.
- A senhora é livre para levar seus documentos e fazer em outro cartório.
- Eu sou livre desde que nasci. Entrei livremente aqui, escolho deixar meus documetnos livremente. Aguardo seu telefonema.

***

Durante a consulta, meu marido encontrou um conhecido na sala de espera que indicou outro lugar.
Saímos do médico, fomos para o outro cartório. Já anoitecia. Eu estava com o braço imobilizado, a Clara chorava, o Levi estava irritado com as muitas horas no carro e lugares onde ele não podia fazer nada além de esperar. Pedi para meu marido descer e verificar.

Dali poucos minutos ele atravessou a avenida correndo de volta com um documento impresso para eu verificar se havia erros de português ou se era necessário acrescentar algo. Tinha um erro ínfimo. Mais uns minutos e ele volta ao carro com um fulano de terno e gravata. Crianças já mais calmas, abri a porta do carro, baixei o volume do rádio.

- Senhora Carolina, perdoe pelo erro. Aqui está o documento, só falta sua assinatura.
- Eu te perdoar? Rapaz! Você nem me esperou descer do carro e fez tudo. Obrigada!

Assinei, pegamos a declaração e a documentação do sinal público e viemos para casa.

No dia seguinte liguei para o outro cartório e disse que estava tudo resolvido.

***

Agora eu imagino o Sr. Fulano contando.

- Hei! Chegaram dois estranhos aqui hoje. Um casal com duas crianças. Ela era baixinha, gordinha, morena e o cabelo todo sarará prá cima, blusa rosa choque, carregava uma bebezinha amarrada num pano. Ele, estrangeiro, branquelo, fala meio enrolada, coisa de gringo. Estava de mãos dadas com um menino loirinho, que usava uma roupa estranha, com escamas nas costas. A bebezinha nem tinha sapatos. Eles todos usavam havaianas. Queriam um documento para registrar a filha no RJ. História toda doida, nem fizeram na cidade onde disseram morar. Prá que fazer isso aqui? Acho que é tráfico de crianças. Não fiz, não. Credo, nem me meto nessas coisas.
 - Gente doida tem em todo lugar.

É, gente doida tem em todo lugar.


quinta-feira, novembro 01, 2012

Papelzinho

Levi me chamou ontem e pediu para eu acender a luz do banheiro para ele fazer xixi. Quando levantou a tampa do vaso, tinha um pedacinho de papel higiênico dentro:

- Mãããe!  Olha só isso! Alguém jogou papel no vaso.
- Acho que fui eu mesma, filho.
- Mamãe, não pode, tá errado.
- É. Tá errado mesmo.
- Agora vc precisa ficar de castigo para pensar e aprender.
- Ah, é? E quem vai me colocar de castigo?
- Sua vó.

Daí liguei prá minha vó Rosalina e contei. Depois de rir bastante ela disse que estou de castigo hoje, proibida de levantar da cama ou sofá, proibida de fazer qualquer coisa na casa.

Alguém me castigue!!

quarta-feira, outubro 17, 2012

Sorvete de que?


Levi, Clara e eu saímos para tomar sorvete depois do jantar. Não sou fã de comprar sorvete, em geral faço (menos açúcar, mais sabor, frutas frescas, chocolate de boa qualidade, leite de verdade), mas ele queria muito. Escolheu de morango, comprei o melhorzinho (marca famosinha, um que diz "leite e fruta"). No caminho de volta, perguntei se o sorvete estava bom. Ele pensou e disse que sim. 
Silêncio de um minuto:

- Mãe, o meu é de gordura.
- HÃ??
- Meu sorvete, mãe. É sorvete de gordura.

Até o Levi percebe que tem gordura hidrogenada nas porcarias industrializadas.
Depois de terminar ele gritou da sala:

- Mamãe!! Minha gordura acabou aqui.
 
Isso me fez pensar que:
 
. Preciso fazer sorvete ainda essa semana. 
. Vale muito ensinar criancinhas a comer de um jeito legal - isso prá não falar da felicidade em ver o tanto de salada que ele comeu no restaurante hoje - e investir em produtos de boa qualidade, mesmo que signifique gastar um pouco mais em ingredientes alternativos.
. Cultivar um bom paladar é ter um adulto mais saudável. Tô investindo agora prá ele colher mais tarde. A curto prazo o paladar dele só rejeita um trambolho, no futuro o fígado, artérias, coração, vão agradecer.
 
E por fim, eu amo cuidar desses meus filhos! É incrível o quanto eles enriquecem minha vida. Voltei prá casa dando gargalhadas e até agora sorrio ao lembrar do sorvete de gordura...
 

segunda-feira, outubro 15, 2012

Bolos e memórias

Comecei a fazer bolos quando tinha nove anos. Lembro claramente do primeiro, uma nega maluca que cresceu lindamente e daí explodiu no forno e virou um biscoitão no fundo da forma e do forno.

Era dia das mães. O primeiro depois da separação dos meus pais. Meus irmãos e eu, depois de alguns meses de batalha judicial, estávamos com minha mãe. Fui à cozinha, conferi os ingredientes baseada numa receita qualquer, talvez de alguma revista Cláudia. Fiz tudo direitinho. Menos o fermento que foi muito e foi batido com a massa, não incorporado lentamente.

O bolo era uma surpresa, se é que dá prá fazer bolo surpresa para uma mãe que estava no cômodo ao lado... Em todo caso, ela não sabia exatamente o que eu estava fazendo. Os meninos e eu ficamos lá, "de castigo" na cozinha até o biscoitão queimar assar. Rimos muito, muito mesmo. Acho que o Felipe ainda tinha o macaco preto horroroso dele, porque lembro da carinha dele sorrindo com o bicho em mãos.

Comemos as bordas queimadinhas, fizemos leite com chocolate para todo mundo. Foi engraçado, deixou a vida mais leve por uns instantes.

Fiz bolos e bolos tantas vezes e de tantas formas que acabei virando craque! Quando chegava alguém em casa, minha mãe pedia e eu fazia um bolo, era só dizer o sabor. Um detalhe engraçado é que eles sempre ficaram prontos rapidamente e sempre fofos. O primeiro desastre me deu umas lições que não esqueci mais.

O dia hoje foi difícil. Cheio de palavras que não deveriam ter sido ditas, de abraços que não foram dados, de risos calados. As crianças dormiram meia hora mais tarde que o usual e fiquei limpando a casa. Falta só terminar de colocar a louça na máquina e passar uma vassoura na cozinha, que foi bem limpa ontem. Ah! Tem umas roupas para dobrar na cama do quarto de visitas, mas é pouca coisa, pode esperar.

Num dia perdido assim, tenho vontade de trucidar umas pessoas e sair correndo e gritando fazer algo para comer. Estivesse no inverno de São Paulo, faria chocolate quente. Mas nesse calorão da terra dos meus filhos, no way. Lembrei de uma receita lida há poucos dias, de bolo de laranja para dias frustrantes, disse a autora. Ôpa, é hoje!

Repeti o processo daquele primeiro bolo. Fui à cozinha, conferi os ingredientes, anotei a receita, liguei o forno, separei tudo, misturei lentamente com um fouet para não "barulhar" a casa com batedeira (confesso, raramente uso batedeira, é quase um tique) e coloquei para assar. Os 50 minutos me deram tempo suficiente para lavar a sala, corredor, tirar o pó de tudo, me livrar das manchas de tinta branca (dei uma geral nas paredes hoje) e revisar o lavabo do corredor. Li umas mensagens, li dois textos bíblicos que alguém querido dos EUA me mandou, pensei na programação do resto da semana, refleti os erros cometidos nas horas que se passaram até aqui.

O bolo deu certo. Ficou delicioso, aliás. Mas quebrou ao ser desenformado. Nada terrível, um erro bobo, deveria ter esperado esfriar mais e deu prá "colar" com o chocolate ainda quente.

Os erros do primeiro bolo me ensinaram a agregar com cuidado, ponderar as quantidades. O bolo quebradinho de hoje me fez relembrar esses ensinos e acrescentou a estes que as coisas têm o tempo certo para virar. A pressa pode estragar e nem tudo pode ser colado com chocolate quente.

Tá anotado.

Receita aqui.

terça-feira, outubro 09, 2012

Salvos pelo bambolê

Algumas semanas atrás, voltávamos de uma praia linda, depois de um dia gostoso com amigos de SP que estavam por aqui, quando vi algo que me chamou a atenção numa loja dessas 1,99.

Bambolês. Eu era fascinada pelos ditos quando criança e estava à procura para que o Levi pudesse se divertir e fazer uns exercícios.

Comprei quatro, um de cada cor disponível, pensando em circuitos animados no corredor lateral da casa.

Semana passada deu uma chuvarada e o Levi ficou trancafiado. Pais de meninos enérgicos sabem que isso requer uma camisa de força muita criatividade e paciência, mas eu estava sem as duas e com muito serviço.
Para minha surpresa, comecei a ouvir risadas do Levi, gritinhos de alegria e um "toc-toc" no chão, de algo leve quicando. Fui verificar se não era a cabeça da Clara na ponta dos pés e encontrei o garotinho saltitando, montado sobre um bambolê aberto. Assim que me viu, ele se apressou a mostrar seu cavalo. Isso durou um tempão.

Minutos mais tarde ele chegou correndo na cozinha, com o bambolê virado, fazendo "chuá-chuá" e e contando como aquele barco era legal e que ele estava no mar da Galiléia pescando com Pedro.

Mais risadas, dessa vez a Clara ria junto e lá vem a explicação do irmão (bambolê com a abertura de lado): "mamãe, olha essa bocona de leão, ela tá comendo a gente!".

Pausa para o almoço, bambolê escostado na cozinha e um garotinho feliz inventando histórias de cavalos, mar e animais de bocona. Soneca. Silêncio. Quase três da tarde e a movimentação recomeçou dentro de casa enquanto a chuva persistia fora.


Já mais livre, sentei com os dois na sala e ficamos conversando e brincando com massinha até ouvir "cadê meu bambolê?". Volta o trequinho azul para as mãos do garoto inquieto.

Bambolê com abertura para cima: "Mãe, olha só, é um U."
Para o lado: "Mããããe!! É um C!"
Para o outro lado: "Manhê, tá vendo? Olha minha lua!"
Para baixo, apoiado no chão: "Mamãe, mamãe, tô numa barraca! Vem, Clara, se esconder da chuva!"

Um bambolê azul desmontado salvou o dia inteiro. Um bambolê e um menino criativo prá dedéu!


sábado, outubro 06, 2012

Livros para crianças

Uma blogueira começou a indicar alguns livros infantis em seu blog. Achei legal, alguns blogs de mães fazem isso e acaba sendo uma boa troca de informação. No entanto, antes de citar um dos livros, ela teceu um comentário das razões pelas quais os livros indicados foram escolhidos. Dentre elas estava "contém poucas palavras e muita ilustração" e havia uma explicação maior sobre esse ponto e a menção de que quando um livro não serve para sua filha ela diz "fulaninha, esse livro aqui não é para vc, tem muitas palavras". Não está transcrito exatamente, mas a ideia é essa.

Bom... não concordo - quem perguntou? - com isso. Olhe só, pense um pouco. Essa corrente de que um livro com poucas palavras é bom para a criança é uma via de mão dupla e não acho que deva ser aceita como teoria absoluta. Isso é baseado na atenção da criança? Na compreensão das palavras?

Acho que até um livro sem palavras pode ser excelente, mas um livro sem ilustrações também. E, ainda que uma mãe pense que o melhor é oferecer livros com figuras, dizer isso ao filho criancinha é criar um preconceito com as palavras, né não?

Como esse blog é praticamente um solilóquio, aproveito para pensar eu mesma comigo. O Levi sabe todas as letras e adora palavras. Ele tem acesso a quase todos os nossos livros, tem os dele no quarto, de fácil alcance, mas pode pegar os nossos. Lembro-me bem de um dia quando ele colocou um livro todo coloridinho na estante e pegou um dicionário para "ler". Fiquei observando e só. Mais tarde ele pediu um livro, fui buscar um dele e ele pediu o dicionário novamente, dizendo "mamãe, quero um de muitas letras". E passou um tempão virando as páginas, concentrado.

Acho importante a palavra em si ter graça para a criança desde pequena e acho também importante não haver uma supervalorização das figuras. Alguém pode argumentar dizendo que a criancinha (estamos falando dos que eram bbs até ontem, com 2-4 anos) não tem capacidade de concentração para frases longas. Mas o exercício da imaginação é parcialmente bloqueado se ela sempre vê as figuras do que lê. Além disso, a concentração vem do exercício da leitura e do exercício de ouvir um adulto lendo.

Meu filho é enérgico, do tipo de sobe em árvore, que pula, que corre e luta para não dormir. Mas ele pode ficar horas ouvindo uma boa história, mesmo sem figuras, mesmo no escuro do quarto. Faz poucos dias começamos a inventar uma história nossa. Depois da rotina jantar/banho/leite/dentes/xixi/história bíblica/oração, começamos a criar nossa história para os dias em que ele reluta mais para dormir. São três cavalos, ele escolheu seus nomes, e eles estão sempre em busca de aventura e vamos criando juntos os caminhos, as personagens, tudo. É tão gostoso! Levi tem dois anos e nove meses.


A melhor forma de ajudar, na minha opinião, a que tenham recursos para alimentar o pensamento é, além de ler, vivenciar. Que a minhoca da imaginação seja a vista no jardim, que o castelo seja o construído no tanque de areia ou na praia com a família, que a música seja variada, nunca viciada e assim por diante.

Não é uma tese de mestrado, é só um pensamento e uma experiência, mas vamos ensinar nossos pequenos a amar letras, não só livros com figuras; vamos ajudar para que eles ampliem a experiência da criatividade, da imaginação; vamos permitir que desenhem mentalmente suas próprias fadas, monstros, reinos, línguas e enredos.

.

sábado, agosto 18, 2012

Reflexos

Um dos meus objetivos para 2012 era cozinhar mais. Cozinho bastante desde sempre, mas queria cozinahr mais em variedade, descobrir novas receitas, diversificar ainda mais o paladar já excelente do Levi e ensinar a Clara a ser boa de garfo (ela ainda estava na barriga quando fiz o plano).

* * *
Estava em casa ontem, terminando de ajeitar algumas coisas antes de colocar o Levi no banho e ele estava especialmente agitado. Não desobediente, agitado mesmo, falando além do normal, repetindo coisas, o que nos deixou até um pouco preocupados, mas esse é outro assunto. 
O menininho falava e falava. Pedi para ele fazer qualquer coisa e ele começou:

- Mamãe, pode parar com isso. Prestenção aqui, ó. Eu preciso de uma xícara de açúcar.

Quando comecei a balbuciar "prá que vo...":

- Mãe, deixa disso, só ouve agora. Olha, eu preciso de açúcar, uma xícara de farinha, bem pouco, um poquitinho de sal, só com o dedinho assim - mostrou como quem pega uma pitada - e água. Ah! Do seu fermento também. A gente mistura e espera ele descansar, depois faz bonitinho prá ele descansar de novo.

- E isso é o que? 

- É pão, mamãe. Eu tô fazendo um pãozinho prá gente comer no café.

Check! Objetivo alcançado.

terça-feira, agosto 07, 2012

Para Ana Elisa, com amor

Ai, meu Deus!

É normal a pessoa ficar com os olhos cheios de lágrimas por causa de notícias de alguém desconhecido??

Ana, achei seu blog faz muito tempo, quando estava procurando uma receita qualquer de pão. Gostei. Passei a consultar às vezes, depois passei a gostar muito das receitas, mas me apaixonei mesmo depois do seu filho aparecer, ainda como feijãozinho, depois bb, agora quase uma criancinha. Tenho um desejo enorme, real e profundo de que seus planos sejam todos bem sucedidos.

Estou feliz por suas mudanças (filhos, rotina, casa e casa novamente, modo de pintar, de escrever) e torço para que elas continuem sempre, porque viver de verdade é estar em mudança constante.

Boa ida! O começo é cheio, a saudade aperta mesmo é quando a poeira assenta (vivo fora de SP faz 10 anos), quando vc tem vontade de tomar uma xícara de café com alguém "de sangue" e não dá. Mas passa. As recompensas fazem valer.

Quanto ao segundo filho (quem me perguntou mesmo?? ai, essa internet... como se eu estivesse livre nesse momento), é uma delícia! E é super, mega cansativo também, só que, tchan-tchan, passa. E a vida vai se reconstruindo, melhor, construindo, a gente vai trilhando os próprios caminhos amparado pelo que viu e aprendeu, porém não fazendo da mesma forma.

Deus te abençoe, guarde e ilumine!

Que seu novo bb seja tão doce quanto minha Clara e as transições, suaves. Que o Thomas se adapte logo, sem sofrimentos e desfralde fácil (rá! garanto que sou a primeira a te desejar isso)...rs...

Bom, já fiz a minha "doidiça".

Com carinho e respeito.

Carolina

quarta-feira, julho 11, 2012

Sólidos, pela segunda vez

Já escrevi aqui sobre como foi a introdução de alimentos sólidos com o Levi.
A Clara começou a jornada com os sólidos um pouco antes de completar os seis meses, uns 15 dias antes.
Tem sido tranquilo, fácil, gostoso, divertido.

Já tinha me esquecido de como é legal observar a carinha do bb experimentando um sabor pela primeira vez. Ainda não estou misturando coisas, mas ela prova tudo o que pede e já conheceu mais frutas do que eu até os 20 anos (nota: eu fui uma das piores pessoas para comer que conheci até hoje, por isso não tenho medo de criança que come mal e, vai ver, por isso não tenho nenhuma ;] ).

Pode ser impressão, mas ela prefere legumes a frutas. O primeiro purê ela comeu quando fez seis meses, mas não havia quem pudesse resistir. Coloquei uma porção de bbzico e ela comeu de bbzão.

Hoje à tarde comeu banana compartilhada do irmão, que ia cortando (esmagando) os pedacinhos e colocando em sua boca. A única coisa que estava meio desconfortável era oferecer comida com ela no carrinho ou no colo. Não sei como uma pessoa vive assim, mas eu detesto alimentar criança tendo que pensar o tempo inteiro "não pode sujar". Hoje o Fernando fez uma cadeira de madeira para o Levi, tipo as de restaurante e isso finalmente liberou o cadeirão para a mocinha fazer suas próprias descobertas, com as mãos.

Não sei se há muito a acrescentar sobre esse assunto, uma vez que a história é quase a mesma do irmão, sobre quem já escrevi. As diferenças são que não comprei copo de transição dessa vez. Para o Levi comprei dois tipos diferentes, caríssimos, que foram pouco usados porque ele passou a preferir um copo comum desses com bico rígido, mas com válvula para não derramar todo o líquido.

A Clara toma no copo de vidro ou xícara de café mesmo e já testei e comprovei que ela usa sem problemas esse tipo de copo com bico rígido, portanto, na próxima ida ao mercado, ela vai ganhar  dois, um para água e outro para refrescos. Ah! Ela adora água, como foi com o irmão e, diferente dele, adora suco também. Ele comia qualquer fruta, mas necas de suco.

Costumo dizer que estamos criando coelhos, porque os meninos - agora os dois - estão sempre roendo alguma coisa verde ou crua.

Termino com uma foto da coelhinha descobrindo brócoli. Enquanto ela descobria, o irmão falava "come, Caara, brócoli é muito delícia!".

domingo, julho 08, 2012

Seis meses

A Clara completou seis meses dia 05. E passou o dia inteiro aparecida da silva.
Comeu papel crepom laranja. Comeu um pedaço de E.V.A. azul turqueza.
Quase comeu um mosquitinho que estava morto no chão, mas consegui intervir antes.
Comeu o primeiro purê, porque estava irresistível mesmo, batatas cozidas no molho da carne preparada na véspera.
Roeu um pedacinho de cola, daqueles tubinhos para pistola de cola quente.
Saracoteou pela cozinha inteira, pela primeira vez. Descobriu que consegue sair do tapete e ir além da área já explorada, que consegue alcançar os pés da mamãe na pia.
Roubou um pão das mãos do irmão.
Perdeu uma soneca da manhã.
Conversou sem parar. SEM PARAR. S E M P A R A R.
Ficou em pé, com o próprio esforço para levantar, pela primeira vez.
Mamou como se fosse a última vez, o tempo inteiro, como se fosse uma despedida.
Chorou um pouco. Gargalhou muito.
Quis colo da mamãe, do papai, do irmão. E só o nosso. Não quis visitas. 
Fez caras e bocas, gesticulou, pediu, gritou, grunhiu.
Foi um dia cheio de Clara.
Tomou banho e foi dormir às seis, em homenagem a si mesma, para descansar no fim do seu dia especial.

sexta-feira, junho 29, 2012

Influência do mundo sobre os filhos

Tô eu aqui pensando.

A gente tenta fazer tudo certo com e pelo filho. O moleque come bem (quantidade E qualidade), dorme cedo, não vê TV, DVD só se eu tiver assistido antes, ouve música boa, não frequenta escolinha e pretendo que não frequente nos próximos muitos anos, vai à igreja, está praticamente o dia inteiro comigo ou com o pai... mas ninguém tem controle total. 

Ele AGORINHA me "cantou":

- Mãe, eu quero tchu, eu quero tcha!

Como faz?? É assim que eles aparecem tatuados em casa??

domingo, junho 24, 2012

Uma noite dessas

Acho que foi anteontem.

Lá pelas tantas da madrugada Levi, que está gripado, começou a tossir. Com o barulho, a Clara acordou e resmungou no berço. Para que ela não chorasse e o Levi acordasse de vez, Fernando se levantou e foi rapidamente até o berço. Antes de encostar no berço, deu um grito, acendeu a luz, o Levi acordou, a Clara começou a chorar e o Fernando voltou para a nossa cama, pulando num pé só.

Tinha pisado num escorpião*.

* Sim, aqui em casa tem muitos escorpiões, sempre. Já procuramos a prefeitura, mas eles não tem quem cuide de questões assim. Já dedetizamos a casa, não resolve. Caso tenha uma dica infalível - criar galinhas não, por favor - diga!

sexta-feira, junho 15, 2012

As mulheres da minha vida

Este post é candidato ao concurso “O melhor post do mundo da Limetree

Publicado originalmente AQUI Ó.

VOTE AQUI


Há quatro meses me tornei mãe de menina.

Desde que engravidei tinha aquela certeza interna de carregar uma menina. Inicialmente o ultrassonografista disse ser outro menino, mas alguma coisa dentro de mim me dizia para esperar e foi o que fiz. 

Veio a novela do nome – um dia escrevo direito sobre isso, acho – e aquela curiosidade gostosa de saber como seria o rostinho da minha bb. 

E no dia 05 de janeiro deste ano, três dias depois do aniversário de dois anos do irmão, a Clara chegou. 

Tão linda, tão esperta, com aqueles olhões arregalados para mim, tão calma, tão gostosa de segurar, de cheirar, com uma micro boquinha vermelha carmim, pela branquinha e cabelos ralos e escuros. Tão emocionante ouvir seu choro. Tão bom sentir seu rosto junto ao meu antes de sair da sala de parto. De repente aquela emoção do nascimento do primeiro filho estava de volta, agora em forma de menina.

Foi e tem sido igualmente assustador. Olhar para a minha filha é olhar para mim mesma de um jeito totalmente novo, diferente. É me enxergar refletida. É revisitar cada uma das mulheres da minha família.

Nos últimos anos inevitavelmente tenho reconhecido essas mulheres em mim. Vejo muito da minha avó materna, na mania de passar tudo pela água, na chatice com o marido ao volante, na rotina diária da casa. Vejo minha avó paterna, sovo meus pães com a mão dela virtualmente repousando sobre a minha, vejo meus movimentos parecidos com os dela, o gosto pela casa cheia, o desejo de muitos filhos (ela teve nove), o “dom da reclamação” sobre todas as coisas e a curiosidade sobre tudo. Vejo minha mãe, a cara de brava dando bronca nos filhos, a criatividade para inventar brinquedos e brincadeiras nos dias chuvosos. Vejo minhas tias, as risadas de algumas, a vontade de esganar de outras e assim percebo que sou uma tela feita de pinceladas diversas de aquarela, de cores diversas que produziram novas nuances ao entrar em contato com os reagentes contidos em mim mesma e que refletem agora uma imagem única, exclusiva, ainda que muito parecida com algumas ou todas elas, não caricata, autêntica.

E temo. Não que o resultado tenha sido ruim... falaria eu mal de mim ou delas?
Temo de um jeito não assombrado, mas ansioso pela nova tela que tenho em mãos: minha pequena e silenciosa Clara. Que reagentes tem ela em sua natureza? A tela parece branca, mas sei que não é apenas isso. Sei que logo suas cores surgirão, sutis inicialmente, mais fortes e seguras no futuro. E tudo o que desejo é ter a mão leve, o espírito aberto, os olhos criativos, o traço firme, mas não rude, para que ela reflita a mais bela obra já vista.

Link para você votar no Face AQUI Ó.

 
* letra AQUI.

quarta-feira, junho 06, 2012

Maternidade Real - Madrugada


Queria postar um texto super legal hoje. Tava inspirada, escrevi mentalmente (oi??) e até comecei a escrever digitalmente. 

Daí... fui cuidar dos filhos e depois sentei para conversar com meu pai na sala, afinal, não tenho meu pai aqui em casa sempre. É melhor conversar com ele.

Conversa vai, conversa vem e estamos nós falando de coisas engraçadas/aterrorizantes dos filhos. Pausa. É muito legal falar dos filhos para meu pai. Minha infância é tão, tão viva, as memórias são tão palpáveis e de repente estou eu falando da infância de meus dois filhos com meu pai. Ai, ai... vou ter saudades disso quando ele voltar prá SP. Despausa. E na conversa lembrei-me de uma coisa do Levi.

Estávamos nós, madrugada, trocando as fraldas dele. Pausa novamente. Gente do céu!! Por que cargas d’água nós íamos em par trocar a fralda de um, UM bebê?? Despausa. Pegamos a fralda, algodão, água morna no potinho, tudo nos conformes. Bebê no trocador, ventilador ligado, girando em direção à cadeira de balanço, aos pés do trocador.

Você, mãe, já se ligou no babado? Você, querido papai de primeira viagem, mentalize.

A dupla e o bebê em seus lugares. Tirei a fralda, rapidamente coloquei a outra debaixo do bumbum, agora limpo. Peguei mais uma bolinha de algodão, umedeci para caprichar e pru. É, isso. PRU. Era esse som mesmo. O garoto fez mais cocô molenga de bebê que só mamava leite dessa mãe aqui. Ele sorriu, nós nem o olhamos nos olhos. Sabe como é... a criança pode achar que acordar à noite é legal, a gente meio que teme brincar com o perigo. Nada de olho no olho. Silêncio total, pega outra fralda, algodão úmido na bundica, fralda nova, bebê sorri e...

PRUUUUUUU.

No ventilador. É. No ventilador. Na parte de trás do ventilador, que puxa o ar, sacou?

Merda no ventilador. Literalmente, numa madrugada quente qualquer de fevereiro 2010.

Quase morremos de rir, tive que dar banho na criança, tive que tomar banho. Precisamos limpar o quarto e o plano “olho no olho nunca” escafedeu-se. Ou, só fedeu-se mesmo.


segunda-feira, junho 04, 2012

Politicamente incorreto


O debate sobre religião paira sobre grupos diversos e, claro, não ficaria de fora da maternagem.

Eis que o Mamatraca novamente entra com um tema para o qual meu comment ficaria demasiado longo e, portanto, não seria legal. Por isso, escrevi aqui, aproveitando para tratar de algo que considero primordial.
Quando vi o vídeo das meninas, concordei parcialmente com cada uma, mas tenho uma opinião própria, construída anos a fio. 

Vamos por partes como diria Jack, o estripador.

Temos religião em casa. Somos presbiterianos. 

Nossos dois filhos foram batizados – na Presbiteriana não há padrinhos, são os pais que apresentam e o pastor local ou convidado batiza – e o próximo (próximos??) também será. Ensino o Levi as coisas normais da vida, como qualquer mãe, mas tudo o que acontece é motivo para que eu o ensine também sobre nossa fé. Não fico discursando com ele. É um processo natural. Quando vemos um passarinho, conto o que o passarinho faz, conversamos sobre onde é a casinha do passarinho, o que ele come e aproveito prá dizer, por exemplo: “filho, viu que lindo o passarinho que Deus fez?”.  

Para alguns soa lavagem cerebral. Para mim, é a pura verdade. É no que acredito mesmo, não acho que outra verdade coexiste com essa. Acho que é essa a única verdade. Avisei no título que seria politicamente incorreta.

Essa abordagem serve para tudo e não penso muito sobre ela, embora não a negligencie, porque acredito também – a Bíblia ensina assim – que tenho a obrigação de ensinar em todos os momentos aos meus filhos sobre Deus.

Uma vez estava conversando com um tio meu, ainda não tínhamos filhos e ele disse que se tivesse um filho, não ensinaria que Deus é a única verdade. Achei engraçado. Perguntei se para ele essa era uma verdade, ele disse que sim, mas que queria que o filho tivesse acesso à pluralidade. Lembro-me de ter rido, achei meio ridículo, ele sabe. Perguntei se ele iria dizer ao filho que o amava, ele prontamente concordou, dizendo que isso verdade. Para mim, dizer aos meus filhos que Deus os ama, que criou o Universo, que Jesus é o único salvador são verdades tão concretas e reais quanto dizer que os amo.

Vamos à igreja semanalmente e, como trabalhamos na igreja, o Levi está acostumado a participar de tudo, inclusive o que não é exclusivo para crianças. Não temos babá, então ele participa de ensaios, algumas visitas, cultos, tudo tudo, desde que não seja na hora de dormir.

Aos domingos ele dorme mais tarde, porque considero mais importante ficarmos juntos no culto. A Clara ainda fica pouco na igreja, mas assim que engatinhar, vai ficar no berçário de lá, como foi com o Levi.

Não acredito que todas as religiões estejam corretas, mas nem acho que a minha é A religião. Gosto da igreja presbiteriana, de sua doutrina, considero uma igreja bíblica, é reformada, o que para mim é essencial, histórica, o que é importante também. A Bíblia está acima de qualquer religião, por isso, o dia em que a Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual faço parte, se distanciar dela, não servirá para mim. A igreja local é o meio para eu servir a Deus, não um fim em si. O fim é Deus.

Mas, e o respeito? Bom, eu respeito todas as outras pessoas de outras religiões, cristãs ou não. Mas não concordo com elas e não é o que desejo para meus filhos. Enquanto estiverem sob minha guarda, enquanto forem menores, vão me seguir. Não tem a opção de ficar em casa, não podem escolher outra igreja. Quando forem donos de seus narizes, ok. Façam o que quiser, antes disso, necas.

Tem outra coisa. Nunca os obrigarei a assumirem um compromisso com a igreja local, porque isso tem que ser uma expressão da sua fé. Vou ensinar, como tenho feito, guiar. Caso não concordem, vão engolir até poderem arcar com suas decisões, mas depois, estarão livres.
Parece incoerente, mas é só prestar atenção e verá que não é. Minha responsabilidade não passa por cima de quem eles são. Um dia eles mesmos vão se questionar, me questionar e quero responder com clareza, calma, vão conhecer outras teorias, e acho tudo normal, saudável e espero que o façam, não que aceitem cegamente minha fé. Quero que desenvolvam um relacionamento com Deus, não que sigam regras vazias.

Isso daria um livro, não um post. Aqui está a introdução.

O politicamente correto parece bonito, mas é uma coluna do meio que não serve para nós aqui em casa e nem por isso nos autoriza a desrespeitar pessoas.

Uma coisa, uma coisa. Outra coisa, outra coisa.

Levi lendo a Bíblia para uma boneca.


sexta-feira, maio 25, 2012

Boas memórias

Essa semana tem muita gente nesse mundo de mães blogueiras pensando sobre o momento mais marcante/emocionante/especial que tiveram em relação à maternagem.

Não sei dizer precisamente qual o meu momento, porque quando lembro de um e penso "é esse!" me vejo em seguida com o mesmo sentimento em relação a outro.

Algumas coisas foram super, super, super.

Descobrir que estava grávida do Levi foi especial demais! Já tinha feito tratamento, já tinha tentado engravidar um tempão, repetido o trabamento e estava há quase um ano e meio tentando novamente. Nada de nada e a médica disse que seria melhor começarmos a pensar em adoção ou fertilização in vitro. Imagine, então, depois disso tudo, perceber que aquele atraso menstrual era diferente, que tinha uma barriguinha estranha, que tinha uma cintura estranha e fazer o exame de urina cedinho e ver duas listrinhas - uma beeem clarinha - e depois confirmar com o exame de sangue? Uma das melhores coisas da minha vida. Eu tinha certeza de que era menino, então ter a confirmação foi outra alegria imensa, porque eu queria menino.

O nascimento, ainda que por cesárea, às pressas, no fim da manhã do primeiro domingo de 2010, com a cara apreensiva do médico que já me vira em dias melhores e com a pressão melhor também, o nascimento foi incrível! Ouvir a voz do meu filho pela primeira vez, o primeiro filho, o meu menino.

A emoção surpresa ao ver um cotoquinho de 8 meses andando pela casa, com 9 andando pela rua sozinho, o primeiro "te amo"... sempre tem alguma coisa. A vida deles faz a nossa emocionante.

Do Levi posso separar a descoberta da gravidez como mais mais, o nascimento e quando disse que me amava.

Da Clara, tão petica ainda, não sei. Eu sabia que estava grávida e pronto. Não foi surpresa. Meu marido e eu conversamos numa tarde sobre filhos, achamos que seria legal parar de evitar, já tinha uma distância segura (por causa da cesárea). Dali uns dias eu já sabia que tinha gente na fôrma. Acho que foi emocionante saber que era menina, saber que nasceu bem depois de todo perrengue do fim da gestaçaõ e a assombração da pré-eclâmpsia de volta. Mas foi muito legal colocar meu primeiro macacãozinho nela. Eu amo olhar a foto em que o Levi a segura, com um pijaminho velhinho, cor desbotada e ela com meu macacão.

Sobre badulaques para guardar, tenho as pulseirinhas da maternidade, primeira roupa de cada, meu dito macacão, mecha de cabelo do Levi (a Clara nem tem ainda!), muitas fotos e o principal são cadernos com anotações que tenho feito e pretendo entregar quando estiverem adultos, saírem de casa ou ainda quando tiverem seus primeiros filhos - caso tenha paciência para tanto.


quarta-feira, maio 23, 2012

Desmamou mesmo?


Tive algumas dificuldades nos primeiros dias para amamentar o Levi, como já citei aqui. Foram poucos dias, muito difíceis, mas nos acertamos, a produção normalizou e tudo ok.

Ele sempre mamou muito, e sempre ficou feliz mamando. Era até engraçado ver.

Já maiorzinho, ele andava pela casa e voltava só para dar um gole, como quem mata a sede.
Isso de forma alguma atrapalhou a introdução de sólidos. Sempre foi bom de garfo também, contrariando muitas crenças e ditos por aí.

Mas o desmame... não foi exatamente como planejei. Gostaria de ter amamentado até os dois anos. Queria engravidar nesse tempo, como de fato aconteceu, quando ele estava com 1 ano e 3 meses. O problema é que comecei a ter contrações fortes, cólica de precisar ficar sentada de olhos fechados para suportar e o obstetra disse que eu precisava parar imediatamente.

Saí do consultório chorando. Liguei para a pediatra, ela disse que achaca preciptado tirar, porque ele gostava muito e estávamos bem assim, mas que conversaria com duas amigas ginecologistas humanizadas, com quem estava almoçando e me ligaria em seguida. 

As amigas ficaram divididas, mas por fim, por causa da cólica ser intensa, acharam que seria melhor interromper. Não tive coragem de tirar de vez, num dia só. Cortei o hábito de mamar logo de cara (aqueles golinhos) e mantive a de dormir e a da manhã, que sempre foi nosso momento especial, porque ele acordava, ia para nossa cama e ficava mamando e tagarelando.

Cortei a da noite, que me trazia mais desconforto. Ele sofreu. Chorou muito, o pai o acalmava, cedi algumas vezes porque nunca tinha deixado que ele chorasse por querer mamar.

Ele entendeu, acostumou. E, finalmente, tirei a da manhã. Conversei, expliquei, disse que ele tomaria um copo de leite morninho ainda na cama e é o que fazemos até hoje, porque é nosso momento especial, de ficar abraçados, de conversar, de beijar. Nós dois gostamos muito disso. 

O processo de desmame durou pouco mais de 2 meses, ou seja, ele desmamou de vez com 1 ano e 6/7 meses. Se por um lado eu sofri, acho que foi melhor. Conhecendo o meu filho sei que para ele seria mais difícil ceder enquanto tinha a irmã mamando. Ele entraria em guerra mesmo, ficaria triste. Ceder para ninguém é uma coisa, mas entregar para a irmã... tsc tsc. 

Algumas vezes durante esses 4 meses de vida da irmã ele chegou a pedir para mamar. “Só um poquitinho, mãe”. Nunca cedi porque via que era um pedido sorridente, não ressentido e ele sempre aceitou as negativas.

Mas anteontem foi fogo! Estávamos sozinhos em casa, ele pediu diversas vezes durante o dia e na hora de fazer a Clara dormir, foi o fim para ele. Começou a chorar, sentido de verdade.

“Mamãe, deixa a Clara e cuida de mim, me dá um mamazinho, ela não quer mais”.
“Não, filho, vc é menininho, não mama mais. Já termino aqui e cuido de você, ok?”
“Mamãe (chorando), eu quero nascer de novo prá ficar bebezinho e mamar”.

Ai, ai... além de malandro e inteligente, ele sabe me quebrar. Quaaase dei, mas sei que teria sido pior para todo mundo, então prometi que tiraria meu leite para ele num copo. Ele ficou quietinho para a irmã dormir logo e disse que tudo bem.

Dei um banho rápido nele e fomos para a cozinha. Tirei o leite, pouco, porque ele estava com pressa, ansioso. Ele tomou um golão tão satisfeito! E só. Não quis mais, agradeceu e pediu o outro leite para dormir. 

Acho que tinha um quê de curiosidade que aquele gole resolveu, desmistificou. Ele disse estava muito gostoso, mas desconfio. Talvez não estivesse assim tão gostoso para ele.

O fato é que resolveu. Pelo menos por enquanto, porque com criança a única verdade absoluta é que eles sempre mudam.

segunda-feira, maio 21, 2012

O primeiro "eu te amo"


Levi começou a falar as primeiras coisinhas com 8/9 meses. Falar mesmo, não aquela barulhada que eles fazem de mãmãmã, pápápá, que na verdade não são palavras como muitos gostam de dizer.

Falou “papai” bem certinho assim numa manhã. Acordou, o peguei no berço e ele foi para nossa cama mamar. Depois de mamar, ficou se sacudindo feliz, como sempre fazia, olhou para o Fer dormindo e falou “papai”. Perguntei o que ele tinha falado e ele repetiu “papai”. O pai mesmo tava no décimo sono e não ouviu. Saímos do quarto um pouco depois para abrir a lavanderia (a Sofia estava miando para entrar) e o Levi falou de novo, “paapai”. 

Era papai e pronto. Dali uns dias fomos para a Romênia. Ele travou, esqueceu-se do papai, das palavras e ficou mergulhado naquele mundo de novos sons. Adaptado, começou a falar sim, dá (sim em romeno), tau-tau (tchau tchau) e umas besteirinhas. Entendia tudo, nas duas línguas.

Voltamos para o Brasil e com um ano ele falava praticamente todas as palavras, não frases, mas tudo o que precisava pedia pelo nome. Progrediu rapidamente e logo ouvi o primeiro “te amo”. 

A gente quase morre, né?

Que coisa mais inebriante ouvir o filho dizendo essas duas palavrinhas. Parece que o mundo pára, que o tempo congela e os segundos podem ser sentidos até no paladar.

Isso faz mais de um ano. 

Mas não era exatamente o que queria contar. 

Hoje ele estava particularmente grudado em mim. Insistiu para mamar – desmamou durante minha gestação da Clara – e disse que queria nascer de novo prá mamar. Depois de muita conversa, beijo, abraço, o coloquei no banho enquanto fazia a Clara dormir. Ele saiu sozinho de lá e apareceu peladão e feliz “mãe, já joguei a água fora, viu?”. Vi, filho, tenho visto cada dia uma coisa nova.

Peguei o hidratante dele, cuequinha, camiseta de dormir e ele ficou sorrindo, dizendo que estava feliz. E me abraçou, pulou no colo e disse “mãe, te iubéc”. Hã? “Te iubéc, mãe, igual o papai.” Sorri feliz, orgulhosa, com aquela mesma sensação de mais de um ano atrás novamente.

Ele me ama. Mas ele também ma iubesti. É te iubesc, ele esqueceu uma letrinha. Não 
importa, tá começando, recomeçando a aprender a falar, agora igual ao papai. 

Levi, si eu. Si eu te iubesc mult. (Levi, eu também. Também te amo muito).

Romênia, com quase 10 meses, num outono lindo.

sábado, maio 19, 2012

Pão de fôrma integral

Hoje foi um dia cheio.

O Fernando saiu logo cedo para dar aula em outra cidade. Isso sempre significa mais trabalho para mim e dia completamente sem tempo nem para respirar. Vai, exagero.. até consigo respirar, não consigo é tomar banho, mas esqueçamos disso.

Tinha almoço suficiente para mim e para o Levi. Requentei um arroz de cereais e feijão, fritei dois bifes ultra macios que separara ontem, a salada estava pronta e tinha uma sobrinha de purê de batatas de ontem à noite, que o Levi ama e aproveitou. Para o jantar, já tinha demolhado ervilhas, que ficaram deliciosas refogadas com bacon, tomate e cebola, servidas com arroz branco - item raríssimo em casa, inclusive o pacote já era - com cenouras e omelete.

Quando vi que horas eram, pensei que daria tempo de fazer um pão para o café, já que os outros dois tinham terminado ontem. Estava querendo fazer um pão integral, as receitas que encontrei em lugares "de confiança" eram em medidas e eu, vergonhosamente, não tenho balança. Aprendi a fazer pães por observação e em volumes.

Peguei uma receita de que gosto, não minha preferida, mas de um pão muito bom, fofinho de fácil e adaptei um pouco. A original pode ser encontrada aqui. Ela foi a inspiração justamente por ser um pão fofo, leve, que me deu coragem para substituir a farinha pela integral, mais pesada e seca.

Meu marido e um amigo americano que está em casa tinham acabado de jantar quando o pão saiu do forno, há alguns minutos. As crianças estão dormindo, deu tempo de eu saborear duas fatias calmamente - coisa rara em vida de mãe de dois peticos - e praticamente não temos pão suficiente para o café da manhã, já que devoraram mais da metade desse aqui. Nem tudo é perfeito.

É tão, tão fácil fazer, que ninguém pode se desculpar com falta de tempo. Fiz a massa, deixei descansando e fui dar banho nas crias, amamentar, contar história, escovar os dentes. Voltei à cozinha, moldei em dois minutinhos e cumpri o restante do ritual noturno do filhote mais velho, uma vez que a petica dorme assim que é posta no berço.

Vamos ao que interessa.


Pão integral fácil, fácil

1 xícara de farinha de trigo
2 1/3 xícaras de farinha integral peneirada (juntar à massa o que foi peneirado, é só para a farinha não ficar socada) (pode acrescentar mais 1/3 se for necessário)
1 colher de sopa rasa de fermento granulado (5g) ou 15 g de fermento fresco
1 colher de chá de mel
4 colheres de sopa de azeite extra virgem
1 xícara de leite morno
½ xícara de água morna
1 ovo ligeiramente batido
½ colher de chá de sal

Aquecer o leite e a água (menos de 60º), juntar o fermento e o mel. Deixar descansar por até 10 minutos. Acrescentar o ovo, azeite, sal e a farinha aos poucos, mexendo com uma colher.
A massa pode até ficar grudenta no começo, mas é melhor não acrescentar farinha e sim sovar até estar elástica, não necessariamente seca. Como aqui é muito quente e anda seco, sempre prefiro que minhas massas fiquem um pouco pegajosas nessa etapa.
Deixar descansar por 1h30. Moldar, colocar em forma de bolo inglês untada e levemente enfarinhada (caso seja de silicone, como a minha, somente untar com manteiga) e deixar descansar novamente por 40 – 60 minutos, até que, quando pressionada, a marca não volte rapidamente. Aquecer o forno a 190º e assar por 25 minutos, até dourar. O pão deve estar com som de oco. Senão, é possível voltá-lo ao forno e assar por mais alguns minutos, observando atentamente pra não queimar.

Já sei que a foto é tenebrosa... mas o pão é delícia!