segunda-feira, outubro 15, 2012

Bolos e memórias

Comecei a fazer bolos quando tinha nove anos. Lembro claramente do primeiro, uma nega maluca que cresceu lindamente e daí explodiu no forno e virou um biscoitão no fundo da forma e do forno.

Era dia das mães. O primeiro depois da separação dos meus pais. Meus irmãos e eu, depois de alguns meses de batalha judicial, estávamos com minha mãe. Fui à cozinha, conferi os ingredientes baseada numa receita qualquer, talvez de alguma revista Cláudia. Fiz tudo direitinho. Menos o fermento que foi muito e foi batido com a massa, não incorporado lentamente.

O bolo era uma surpresa, se é que dá prá fazer bolo surpresa para uma mãe que estava no cômodo ao lado... Em todo caso, ela não sabia exatamente o que eu estava fazendo. Os meninos e eu ficamos lá, "de castigo" na cozinha até o biscoitão queimar assar. Rimos muito, muito mesmo. Acho que o Felipe ainda tinha o macaco preto horroroso dele, porque lembro da carinha dele sorrindo com o bicho em mãos.

Comemos as bordas queimadinhas, fizemos leite com chocolate para todo mundo. Foi engraçado, deixou a vida mais leve por uns instantes.

Fiz bolos e bolos tantas vezes e de tantas formas que acabei virando craque! Quando chegava alguém em casa, minha mãe pedia e eu fazia um bolo, era só dizer o sabor. Um detalhe engraçado é que eles sempre ficaram prontos rapidamente e sempre fofos. O primeiro desastre me deu umas lições que não esqueci mais.

O dia hoje foi difícil. Cheio de palavras que não deveriam ter sido ditas, de abraços que não foram dados, de risos calados. As crianças dormiram meia hora mais tarde que o usual e fiquei limpando a casa. Falta só terminar de colocar a louça na máquina e passar uma vassoura na cozinha, que foi bem limpa ontem. Ah! Tem umas roupas para dobrar na cama do quarto de visitas, mas é pouca coisa, pode esperar.

Num dia perdido assim, tenho vontade de trucidar umas pessoas e sair correndo e gritando fazer algo para comer. Estivesse no inverno de São Paulo, faria chocolate quente. Mas nesse calorão da terra dos meus filhos, no way. Lembrei de uma receita lida há poucos dias, de bolo de laranja para dias frustrantes, disse a autora. Ôpa, é hoje!

Repeti o processo daquele primeiro bolo. Fui à cozinha, conferi os ingredientes, anotei a receita, liguei o forno, separei tudo, misturei lentamente com um fouet para não "barulhar" a casa com batedeira (confesso, raramente uso batedeira, é quase um tique) e coloquei para assar. Os 50 minutos me deram tempo suficiente para lavar a sala, corredor, tirar o pó de tudo, me livrar das manchas de tinta branca (dei uma geral nas paredes hoje) e revisar o lavabo do corredor. Li umas mensagens, li dois textos bíblicos que alguém querido dos EUA me mandou, pensei na programação do resto da semana, refleti os erros cometidos nas horas que se passaram até aqui.

O bolo deu certo. Ficou delicioso, aliás. Mas quebrou ao ser desenformado. Nada terrível, um erro bobo, deveria ter esperado esfriar mais e deu prá "colar" com o chocolate ainda quente.

Os erros do primeiro bolo me ensinaram a agregar com cuidado, ponderar as quantidades. O bolo quebradinho de hoje me fez relembrar esses ensinos e acrescentou a estes que as coisas têm o tempo certo para virar. A pressa pode estragar e nem tudo pode ser colado com chocolate quente.

Tá anotado.

Receita aqui.

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