quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Meu aniversário

Yes. Hoje é meu aniversário.
Senti-me estranha durante a manhã, como se fosse errado eu completar mais um "ano de vida". Parece que comemorar a vida é algo ofensivo nesse momento. Sei que não é, que a vida segue etc etc mas a sensação foi essa.
Esse ano nossa família não deveria fazer aniversário. Cada família deveria ter o direito de não fazer aniversário durante o ano da perda de parentes próximos. Seria facultativo, porque somos um país democrático (somos??) e seria injusto e feriria a constituição se obrigássemos todos a fazer a mesma coisa.
E deveria também ser um ano por direito "sabático".
Quem consegue trabalhar direito ao perder quatro parentes amados?
Vamos mudar as leis! Vamos vestir a camisa dos enlutados desse país!
E tudo, de um jeito ou de outro, é política.

Fome


Criança desnutrida na África.

Se antes eu precisava desses lembretes, agora dependo deles.

Porque existe dor maior que a nossa. Sempre. Em algum lugar.

Não somos os mais sofridos desse mundo, os que enfrentam dificuldades. Essa dói em nós hoje, mas e a dor de todos e tantas dores diárias que ignoramos?

Choramos a morte de nossos queridos.
Mas alguns choram a necessidade de sobreviver.

Choro a saudade de alguém que se foi, mas posso pegar um avião e encontrar meus parentes vivos e dar-lhes um abraço.
Mas alguns choram o abandono perpétuo.

Quantas famílias choram todos os dias dores iguais à nossa, maiores que a nossa?

As vítimas da guerra. Do Iraque, do Afeganistão, de Israel. A repressão cubana. As tribos africanas. Os bebês assassinados nas nossas tribos, tirados de suas mães com os peitos fartos de leite.

Seria muito mesquinho me fechar em minha dor. Ela é grande, não a minimizo. Ela é forte, não a subestimo. Mas estou aqui, no conforto da minha casa. Durmo ao lado de meu marido. Escrevo num computador.

E sou livre. Saudável.

Acredito que um dos remédios agora seja olhar para a dor alheia.

Porque tem sim, sofrimento maior que o nosso.





segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Sentimentos...

Nunca tinha me deparado com a morte de maneira tão próxima.

Perdi minha bisavó, mas ela estava "passando da hora de morrer", quero dizer, muito velha, com sinais de esclerose, a mente não muito são mais fazia algum tempo. Às vezes reconhecia a família, às vezes não. E ela estava velhinha. Nós "esperávamos" que morresse.

Fora isso, morreu um tio do meu pai, o Samuel, que se conheci, era bebê. Não fez tanta diferença e pouco tempo atrás morreu um outro tio dele, o Levi. Foi uma morte triste, ruim e que ficou entalada na nossa goela, por causa de como aconteceu. Ele foi atropelado enquanto atravessava uma avenida perto da casa da irmã dele (minha avó). Ficou internado uns dias e morreu. Ele era alegre, brincalhão, cantava tocava violão. Era muito legal chegar na casa dos meus avós, sentir o cheiro de café e ver os três, minha avó, meu avô e o tio Levi, cantarolando um hino a três vozes... Era legal também quando se apresentavam na igreja.

Ele sofreu o acidente enquanto eu estava dentro do avião, voltando das férias em SP aqui para minha bat-casa. Tínhamos nos visto um dia antes. Ele tinha me dado aquele super abraço "põe-coluna-no-lugar". Fiquei triste. Não chorei. Passei uns dias sem entender. Mas mesmo assim, era um avô, quase bisavô. Tinha feito tudo o que se espera que um homem faça na vida - em nossa vã e supérflua filosofia, claro - e apesar da morte naõ ser natural, a ordem cronológica mais ou menos foi.

Por parte de mãe também sofremos a morte de algumas tias dela. Tia Nega, cujo nome verdadeiro é uma incógnita para mim. Uma mulher que conheço apenas por histórias, que tinha um gênio daqueles... Morreu não lembro de que, mas era velha e não tínhamos contato. Ela morava no interior de SP, muito longe de nós e fora minha avó, irmã dela, que sofreu muito, acho que nem minhas tias irmãs da minha mãe sofreram.

Depois dela, morreu a tia Ignês. Ela eu conhecia melhor. Lembro dela em várias ocasiões e ela esteve em itu, na casa da minha avó materna e conversamos e nos abraçamos antes de eu voltar de férias (outras em SP).

Gostava dela, apesar de ser uma tia também distante. E aprendi a admirar seu comportamento de boa mãe, boa filha (pelas histórias, obviamente), boa cristã. Ela sofreu muito com o câncer. Lutou bravamente contra ele durante três anos, mas não resistiu. O golpe final foi dado quando soube que há anos era traída por seu marido. Parece que ela se entregou. Quem não se entregaria? Foi sofrido, mas não chorei. Fiquei uns dias pensando naquilo... mas é a vida. Ela era uma senhora, bisavó.
Estava cansada de lutar com seu corpo.

Mas essa morte do tio Ailton, da Kátia, da Bruna e do Caio.... meu Deus! Que difícil tem sido!

Tudo tão "interrompido", todos novos, o choque de serem quatro, não apenas um, estarem passeando, ter ficado vida só uma mãe sem filhos e agora viúva!

Fazia anos que não chorava tanto! Agora as lágrimas parecem ter chegado ao fim, mas não consigo seguir normal ainda. Tenho me esforçado, tenho um marido muito compreensivo, tenho tentando manter as atividades regulares, mas não dá. Simplesmente não dá. Parece que ficou um pedaço da gente (falo por minhas tias, tios, meu pai - era irmão dele - meus avós) preso no cemitério de Ribeirão Pires. E falar, escrever, lembrar disso, dói.

Dói agudo, o peito sente uma fisgada, uma pontada... é físico mas é quase impossível descrever.

O que faz as emoções oscilarem tanto nem sei dizer. A perda parece maior agora.

A imagem dos quatro nos caixões. A risada boa do tio um dia antes dizendo que ainda tava em pé o plano de passar aqui em casa. A vontade de ligar para ele e não poder mais. A foto encontrada sem querer com o Caio no meu colo e todo mundo rindo com o biscoito de polvilho da vó que saíra do forno. As piadas de morte, sobre morte que o tio adorava contar. A Kátia se preparando para prestar vestibular no fim do ano. A Bruna pedindo para jogar no meu Palm. Cuidar do Caio para a Lídia tomar banho antes do culto. A imagem dos quatro nos caixões. As fotos deles no Orkut. A tiração de sarro do tio quando me encontrou pela primeira vez depois do meu casamento aqui em casa. O cuidado dele quando pensou que eu estivesse grávida e os conselhos para eu não tomar remédio para infecção urinária. O choro amargurado quando ele veio a primeira vez aqui em Rio Tinto, quando nos encontramos na rodoviária em Mamanguape e nos abraçamos. As lutas juntos. Os segredos que tínhamos. A alegria dele ao ver que finalmente aqui havia uma casa para obreiros. As dicas de eletrônicos. O amor forte pelo meu pai que nós dois compartilhávamos e o desejo de vê-lo na igreja. A imagem deles no caixão.. Os quatro caixões.

Não tem como esquecer nada disso. Nem sei se quero. Quero só que a vida encontre logo seu novo caminho se ser em meio à essa bagunça agora.