sábado, abril 17, 2010

23:33

Chove. O ruído do ventilador e da tv abafam o barulho das gotas caindo na varanda.
Há alguma comemoração na cidade. É fácil saber. Tem música alta, dançante.
Essa é a hora em que meus pensamentos se reúnem no pátio. Dão as mãos, rodam numa ciranda frenética, num carrossel alucinado, uns tentando se sobressair, outros se ocultar. Os mais puros se entrelaçam com os fétidos, os sonhadores com os fracassados. São todos meus. São todos eu.
Penso no meu bebê no berço. No meu marido lendo na sala. Meu irmão no hospital. Penso nos parentes distantes, nos parentes mortos de repente. Penso nos meninos da igreja. Nos bons amigos.
E tudo gira sem parar.
Penso na fome - sempre penso na fome - e nas criancinhas que morrem de fome.
Nos lugares lindos que já vi. Nos que ainda quero conhecer.
E o sono chega lentamente. Ordena tudo isso aos poucos. Engaveta um riso, arquiva uma dor, põe uma saudade em banho-maria, um sonho sobre a mesa, os medos no baú e acaricia as alegrias, para estarem bem dispostas pela manhã, carregadas pelos braços do ânimo que vem na brisa do renôvo.
Amanhã talvez seja tudo igual, talvez não. Quem sabe?
E, importa? No fim, diz Salomão, é tudo canseira, enfado e vaidade.
Espero poder ao menos no último sono da minha vida, ter um arquivo repleto de utilidades para apresentar e ter a certeza de que nada disso foi em vão.

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